Sunday, January 13, 2002

.. não, obrigado ..

O homem do não - João Emanuel Carneiro

"Tudo começou quando ele ganhou um sorteio de um kit de molhos de macarrão num vôo da ponte aérea. Ele tomou coragem e disse à aeromoça:
– Não, obrigado.
Em outros tempos, ele teria aceitado o kit. Desceria do avião arrastando aquele imenso pacote e depois não saberia o que fazer com aquilo, já que ainda por cima detestava macarrão. Ele sentiu um imenso prazer naquele "não". Um "não" da maturidade. Sua vida sempre foi um erro por causa do "sim". Afinal, ele sempre disse "sim" aos pais, "sim" aos professores", "sim" à mulher", "sim" ao chefe, "sim" ao governo. Sim, agora era chegada a vez do "não". Ele deleitava-se imaginando as infinitas possibilidades que (não) se abrem no não.
Naquela mesma noite, a mulher lhe disse na cama:
– Me beija, amor...
Ele respondeu, definitivo:
– Não, obrigado.
No dia seguinte, à tarde, ela lhe perguntou:
– Não quer pegar um cineminha, benzinho?
E ele, mais uma vez:
– Não, obrigado.
Na rua, o guarda advertiu:
– Você está parado na faixa dupla. Sai daí.
E ele, sorrindo, devolveu:
– Não, obrigado.
– Como assim, não vai sair?
– Não, obrigado.
Levaram-lhe o carro. Mais tarde, no escritório, ele ouviu do chefe:
– Você vai hoje mesmo pra São Paulo.
Esta foi a resposta mais saborosa do dia:
– Não vou não, obrigado.
O chefe quase caiu pra trás. Achou que ele estava tendo um surto psicótico. Deu-lhe férias imediatamente. O plano estava finalmente começando a dar certo.
Foram necessários apenas uns dezoito "não, obrigado" da parte dele para a mulher fazer as malas e deixar a casa definitivamente. Agora ele estava livre daquele carro que sempre detestou, daquele trabalho infeliz e daquela mulher insuportável. Tudo isso graças ao milagroso "não".
A situação começou a se complicar quando dois pivetes o encurralaram na rua – não podemos nos esquecer, ele agora, sem carro, andava a pé. Um pivete mandou essa:
– Passa a grana, mané.
Ao que ele devolveu, calmo e sublime:
– Não, obrigado.
Os pivetes acharam graça naquele maluco. Respeitaram a doideira do cidadão. Deram até tapinhas nas costas dele e foram assaltar uma senhora. Mais uma vez ele foi salvo pelo "não".
Vocês com certeza estão querendo saber que destino teve o homem do não. Devem estar imaginando que em pouco tempo ele se tornou um mendigo – que por sinal dizia "não" às esmolas.
Todos supõem que ninguém sobrevive muito tempo insistindo no "não". É que nós – os escravizados do sim – não podemos suportar o fato de alguém se dar bem simplesmente apertando a tecla "não".
No entanto, não foi nada disso que aconteceu. Convencidos de que nosso homem endoideceu de vez, os caras do escritório concederam-lhe uma aposentadoria por invalidez. E já imaginaram o que ele economizou cancelando o pagamento das mensalidades do plano de saúde, da TV por assinatura, do seguro do carro, da academia de ginástica, da viagem para a Europa que ele não fez e do cursinho de cerâmica da mulher?
Nosso herói hoje em dia é um homem quase rico. E por sinal vai muito bem, obrigado."



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